Os colegas

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Os colegas
No princípio eram só os dois. Tinham se encontrado pela primeira vez revirando a mesma lata de lixo.
– Esse osso que tem aí é meu!
– É meu!
– Já disse que é meu!
Se zangaram.
Rosnaram um pro outro.
– Larga o osso!
– De jeito nenhum!
– Tô dizendo pra largar!
E então se atracaram dispostos a uma briga feia.
Foi quando passou por ali um garoto assobiando um samba.
Os dois interromperam a briga e começaram a prestar atenção na música que ele assobiava.
– Tá errado! – disse um deles pro garoto.
– Esse samba não é assim; é assim! – disse o outro. E começou a cantarolar certo a melodia.
O garoto nem ligou, foi embora. Mas os dois ficaram cantando a música até o fim. E depois um deles disse:
– Acho esse samba o máximo.
– Legal! – falou o outro.
– Sabe? Coisa que eu gosto é de fazer samba.
– Ah, é? Então somos colegas.
Esqueceram o osso e a briga. Sentaram no meio-fio e começaram a falar de samba.
Ficaram muito interessados um no outro.
– Como é que você se chama?
– Não sei. Ninguém me chama pra eu saber como é que eu me chamo. E você?
– Vira-lata.
– Quem é que chama você assim?
– Chamar ninguém chama. Mas gritam “Sai daí seu vira-lata! Acerta uma pedra nesse vira-lata!”
– Bom, isso tudo eu também tô sempre ouvindo.
– Então pronto: você também se chama Vira-lata.
Se olharam melhor pra ver como é que eram: malhados, e o tamanho mais ou menos o mesmo, mas um tinha o rabo mais curtinho, uma orelha sempre em pé e a outra sempre caída; o outro tinha mais manchas no corpo e o cacoete de piscar o olho esquerdo.
Continuaram a conversar. Foram vendo que gostavam das mesmas coisas: futebol, praia, carnaval. Gostavam também de bater papo e de ficar olhando os barcos no mar.
– Acho que a gente vai acabar ficando amigo.
– Tá parecendo.
Dividiram o osso.
– Onde é que você mora?
– Num terreno baldio lá perto da praia.
– Tem casa?
– Não, mas tem um monte de entulho bom mesmo.
– Bom pra quê?
– Pra gente cavar quando quer, se esconder atrás quando precisa, fingir de casa quando cisma.
– Vou lá ver.
Quando chegou gostou um bocado do lugar.
– Tá me dando uma vontade de cismar que é minha casa…
Acabou cismando.”
Lygia Bojunga Nunes


“É no lar que se deve pôr em ação a virtude da lealdade. Crianças e jovens irão gravar na camada mental inconsciente os exemplos de franqueza, dignidade e lisura recebidos dos pais, conservando-os para sempre. De igual forma, são modelos de honestidade de propósitos as lições recebidas na idade escolar dos dedicados e competentes mestres.” Maria Cottas