A amizade na obra de Lygia

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A amizade na obra de Lygia
(de Aristóteles e de Agamben)
Essa historinha linda é um trecho da obra infanto-juvenil “Os colegas”, da escritora gaúcha Lygia Bojunga, a primeira autora fora do eixo Estados Unidos–Europa a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infanto-juvenil. É uma fábula de 1972 que conta a aventura de cinco animais: os cachorros Virinha, Latinha e Flor-de Lis, o coelho Cara de Pau e o urso Voz de Cristal.
Essa parte inicial é quando dois dos cachorros se conhecem. Vão ficar amigos, não sem antes se desentenderem por causa de um osso. Mas a dupla acaba descobrindo coisas em comum e, no fim, dividem o osso e passam a dividir também a casa. As personagens são “seres abandonados, vivendo à margem da vida, mas que – uma vez reunidos pelo acaso – descobrem a amizade, a solidariedade e uma intensa alegria de viver”, como está definida a obra no site da autora.
O tema da amizade é antigo e discutido por estudiosos renomados desde a Antiguidade. Aristóteles foi um desses estudiosos. Não é fácil ler a “Arte Retórica” e a “Arte Poética”, obras desse pensador grego, mas é no clássico que ele define que amar é querer para o outro aquilo que consideramos serem bens, não no nosso interesse, mas no interesse do outro; é “na medida de nossas forças agir para proporcionar ao outro essas vantagens”.
Ele continua: “Posto isto, é necessariamente amigo aquele que conosco se alegra no bem e conosco sofre no mal (…) Mostra-se verdadeiramente amigo o homem que quer para o ser amado aquilo que quer para si”.
Não é lindo? Embora seja uma obra difícil, escrita há séculos, sua definição de amar e de ser amigo é clara, fácil de compreender. Para os que são bons, é fácil também de colocar em prática.
Bem mais recentemente, o filósofo italiano Giorgio Agamben dedicou um capítulo ao tema da amizade em sua obra “O que é o contemporâneo e outros ensaios” (traduzido no Brasil em 2009). Ele explica inicialmente que a amizade e a FILOsofia são tão íntimas que esta inclui o philos, o amigo, em seu próprio nome. Ele cita Aristóteles quando este diz que “o amigo é, de fato, um outro si mesmo” e que a amizade pressupõe conviver e ter em comum ações e pensamentos.
Agamben continua trazendo a reflexão do “com-sentir”. O eu e o amigo são as duas faces dessa com-divisão. É complexo tudo isso, mas chegamos ao ponto: ao descobrirem que gostavam das mesmas coisas, os dois vira-latas da história premiada de Lygia acabam com a briga, dividem o osso e vão morar no mesmo lugar. Pronto: se tornaram amigos. E sem grandes teorias. Apenas “dividiram o osso”.
Agamben diz que não dá para fugir do fato de que não se pode viver sem amigos, de que não é possível ter muitos amigos e de que amizades a distância tendem a produzir o esquecimento. Portanto, vamos nos esforçar para fazer amigos, mantê-los e viver para vê-los felizes, o que, com certeza, nos fará felizes também.
Mais sobre Lygia
Lygia Bojunga (foto) nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul, no dia 26 de agosto de 1932. Com oito anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Em 1951, entrou para a Companhia de Teatro Os Artistas Unidos, que se apresentou pelo interior. Depois, foi morar no interior do Rio, em busca de uma vida integrada à natureza, escrevendo, em 1972, seu primeiro livro: Os Colegas. É autora também de Angélica (1975), A Bolsa Amarela (1976), A Casa da Madrinha (1978) e O Sofá Estampado (1980). Em 1988, voltou a atuar nos palcos do Brasil e do exterior. Em 2002, publicou Retratos de Carolina.
Tharsila Prates