Uma história

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Uma história e suas lições
Era uma vez um homem que tinha tantos filhos que já não achava mais ninguém para apadrinhá-los. Nascendo mais um filhinho, saiu para procurar um compadre e topou com a Morte, a quem convidou.
Já dá uma vontade de parar a leitura aqui mesmo, não é? Coisa mais mórbida… Mas, pensando bem, podemos aprender algumas lições com este que é um conto tradicional brasileiro, proposto na tarefinha de português para alunos de 11 anos.
A história continua com a Morte (já vamos entender por que a grafia em letra maiúscula) dizendo ao homem que vai torná-lo rico, para que não falte nada ao seu afilhado. Faz dele médico e dá uma orientação: toda vez que ele for visitar um doente, ela vai junto; se a Morte estiver na cabeceira da cama, ficará tudo bem – o homem poderá receitar até água pura que a doença passará; mas se a Morte ficar no pé da cama, é caso perdido. Com isso, o homem fica rico, ganha fama e acaba sendo chamado pelo rei quando o filho deste adoece.
Para não perder a riqueza oferecida pelo rei, o homem trata de enganar a Morte quando ela se coloca no pé da cama do príncipe: mandou que os criados virassem o móvel de modo que a cabeceira ficou nos pés, e os pés, na cabeceira. Portanto, o príncipe sobreviveria. A Morte não gostou nada, mas teve de ir embora.
O homem, ainda se achando um espertalhão, engana a Morte uma segunda vez. É quando ela o convida para a sua casa e ele vê que a sua vela já está no finalzinho, o que significava que o fim estava próximo (lembrem-se de que é um conto popular, que trata a Morte – já perceberam? – como uma personagem, alguém de carne e osso; por isso, a letra maiúscula, designando nome próprio).
Nesse ponto, já podemos tirar a primeira lição: a morte só é personagem em histórias como essa, de tradição popular, ou na história em quadrinhos da Turma do Penadinho, de Mauricio de Sousa, o criador da Mônica. Na vida real, ela não é de carne e osso e não pega ninguém de noite; não é uma assombração. É um fenômeno natural. Assim como ocorre com as plantinhas, que nascem, crescem e morrem, nós também: vivemos e morremos. Estamos sujeitos a nascer (ou seja, temos essa oportunidade) e, consequentemente, estamos sujeitos a morrer.
No site oficial da Turma da Mônica, os redatores acharam um jeito ótimo de defini-la: “(a morte) existe desde que o primeiro ser vivo surgiu no universo, cuidando para que a vida se renove sempre”. Sabe outra coisa que não é um personagem, de carne e osso? Deus, que é também um fenômeno, ou melhor, uma força que rege esse Universo do qual estamos falando. Não está sentado em um trono, realizando desejos de ninguém. E como fazer para conectar-se com essa força? Sendo um bom menino e uma boa menina.
Por falar nisso, vamos continuar com a história (porque não podemos deixar nada pela metade). Ao ser acompanhado pela Morte, o homem pede a ela para rezar um Pai-Nosso antes de ser levado. Espertão, ele começa a rezar, mas não termina. Ela pede: “Vamos, compadre, reze o resto da oração!”. E ele: “Nem pense nisso, comadre! Você jurou que me dava tempo de rezar o Padre-Nosso, mas eu não expliquei quanto tempo vai durar a minha reza. Vai durar anos e anos…”
Com isso, de novo, a Morte foi embora, resmungando. Anos e anos depois, ela conseguiu pegá-lo desprevenido. Sabe como? O homem, já velhinho, percebe que animais furaram a cerca de sua propriedade e estragaram o seu jardim. Nervoso, ele diz: “Só queria morrer para não ver uma miséria destas!…” Mal fechou a boca, a Morte o levou. Temos aí, mal explicando, a lei da atração. Não dá para pensarmos em coisas negativas (pedir para morrer não é bom!) sem que elas não aconteçam. Atraímos aquilo que pensamos. Para que, então, falar bobagens? Deu nisso.
Às vezes também, a gente pensa que pode enganar alguém e até consegue uma vez, duas… mas, na terceira, somos pegos. Não é bonito enganar ninguém, seja por qual motivo for. Pensem em tudo isso e leiam o máximo de histórias que puderem, Isso os fará sabidos.
Tharsila Prates
Jornalista, coordenadora do A Razão Criança